Teologia do Antigo Testamento




A história da Teologia do Antigo Testamento tem suas divisões, passemos ao resumo de seus principais períodos e seus aspectos:


Ø Primeiro período

Até o final do século XVIII, a teologia era mais dogmática, doutrinária, sua ênfase era na utilidade e aplicação na vida diária.

Desde então, o racionalismo plantou as suas sementes para uma formação mais critica da teologia do Antigo Testamento.

Em 1787 o teólogo Johann Gabler foi o primeiro a diferenciar teologicamente entre Novo e Antigo Testamento. Levantou a possibilidade de uma teologia bíblica do A.T., que não fosse sistemática, mas uma teologia apenas do A.T. Entretanto, ele não desvinculou o A.T. das raízes racionalistas.

Depois dele em 1796 vem G. Bauer, publicando a obra “Teologia do A.T.” Segundo ele, o A.T consistia de uma séria de relatos produzidos a partir de mitos, sem valor para o homem moderno, eram superstições de uma raça antiga.

Após Bauer, a crítica literária vai separar os vários estilos literários: mitos, poéticos, históricos, etc.

Bauer e Gabler fugiram do “Dogmatismo Cristão”, mas caíram no extremo do racionalismo.


Ø Segundo período - A morte da teologia do A.T.

 
Séc. XIX - Maior expoente: Julius Wellhausem – Pregava o desenvolvimento da literatura de Israel a partir de influências externas, ou seja, o que existia no A.T. era uma cópia das outras religiões, imitação do paganismo e das religiões naturais. Exemplo: as festas religiosas de Israel teriam sido nesta ótica, festas babilônicas, agrícolas, que celebravam a fertilidade da terra.

Propõe-se, assim, não uma teologia do A.T., mas a história da Religião de Israel.

 

Ø Terceiro período: Renascimento da Teologia do A.T.


Séc. XX. É preciso entender o inicio do séc. XX. O racionalismo e suas vertentes legaram ao mundo que o ser humano poderia criar todas as coisas. Era um momento de euforia na história da humanidade. A razão era a deusa.

Entretanto houve um momento em que tudo isto caiu por terra. A primeira guerra mundial, depois a segunda guerra mundial. Decepção com a autonomia econômica (escravo do capital ou escravo do Estado). O Titanic ruiu na 1ª viagem. Aviões, criados para transportar pessoas, jogavam bombas nas pessoas. Daí veio a decepção com a ciência e com a razão: onde buscar ajuda? No próprio ser humano? Deve-se buscar ajuda fora de si, tem que se apegar a alguma coisa.

Nesta época surge Karl Barth com uma nova teologia dogmática, diferente da primeira, onde um testamento dependia do outro, também o antigo não era fruto de religião natural, mas era preciso recuperar o aspecto de palavra no texto, os ensinamentos e doutrinas.

W. Eichrodt (1928) – desenvolveu o pensamento de que há valores religiosos próprios dos hebreus no A.T. Para ele, a função do teólogo é descobrir a essência do A.T. visto que há um ambiente cultural e espiritual peculiar à comunidade de Israel. Em 1933 Eichrodt  baseado no tema da aliança, propõe um esboço para o estudo: “Deus e o povo, Deus e o mundo, Deus e o ser humano”.

Gerhard Von Rad, 1938 – Conhecido como o Teólogo de transição. Para ele o escritor do A.T. era uma espécie de teólogo que reuniu tradições diferentes ligadas a antigos santuários tribais, a partir de percepções diferentes (Javista e Eloísta). O redator teria reunido essas tradições de diferentes épocas do Israel antigo, e fez uma espécie de moldura do Pentateuco, construindo assim uma espécie de “história da salvação” (História das tradições de Israel ou Teologia do A.T.?). Von Rad é criticado por não ter escrito uma teologia do AT, e sim uma compilação das tradições de Israel.


Ø Quarto período: O Movimento da Teologia do A.T (Era de Ouro da Teologia do A.T.)

Depois de Von Rad, surgem dois teólogos basilares para a TAT: Otto Baab (1949) e Brevard Chisds.


Três características deste momento:


1) Os teólogos afirmam a unidade espiritual de toda a bíblia, mas sem desprezar o caráter peculiar do A.T., que é a “história de um Deus de amor, que está à procura do homem, mas este está sempre fugindo da sua presença”.

2) O resgate da singularidade da fé bíblica diante das outras religiões.

3) Resgate da mensagem bíblica do A.T. perdida nos teólogos racionalistas (Entre os batistas no Brasil, destaca-se A. R. Crabtree).

 

Ø Quinto período: Busca por uma Identidade da Teologia do A.T. (Situação atual).

 
Ultimo quarto do séc. XX - Crítica violenta às escolas de crítica da bíblia. Os teólogos tiveram que trabalhar uma nova perspectiva, surgindo uma nova crítica bíblica, e mais possibilidades ortodoxas. Alguns teólogos trabalham o A.T. por temas, buscando, como no terceiro momento, a essência do mesmo, mas de tal forma que se aproxime de uma tendência temática e exegética.

Walther Zimmerli (1972) - defendia que o A.T. circula em torno do 1º mandamento.

Walter Kaiser (1978) dizia que o elemento unificador é o conjunto promessa-bênção.

Claus Westerman (1979) – apresenta a Teologia do A.T. como teologia de eventos. “Temos que apresentar a teologia do A.T da maneira como o A.T o faz: em forma de narrativa ou história, baseado em eventos ao invés de conceitos”. Para ele a Torah contém os atos salvíficos de Deus na história; Os profetas nos trazem a palavra de Deus; os escritos (literatura de sabedoria e Salmos) trazem a resposta humana ao agir e ao falar divinos.

Simon de Vries (1983) – destacou temas específicos próprios do Israel bíblico.

 

Dividiu a teologia do A.T em 5 temas:

 
1) Transcendência de Deus;

2) Imagem divina espelhada na personalidade humana;

3) Pacto/aliança com o elemento gerador de uma comunidade integra;

4) História como lugar do encontro com Deus;

5) O sentido e propósito na existência finita (busca da identidade).

 
Elmer Martens (1992) trabalha o A.T a partir do plano divino, dividido em 4 temas:

1) Libertação;

2) Comunidade;

3) Conhecimento de Deus;

4) Vida abundante.

 
Ele faz uma analise diacrônica do período tribal (patriarcal), monárquico e pós-exílio.

Valorização da história das tradições de Israel como elemento norteador de uma teologia do A.T – tradição é algo do passado que nos ajuda a formular uma compreensão do momento. Nesse sentido cada geração do povo de Deus nas páginas do A.T encontra-se sempre na tarefa nova de definir-se como povo de Deus a partir de uma consciência histórica, cuja participação de Deus era tida como certa. Exemplo: uma narrativa do decálogo em Êxodo e outra em Deuteronômio, um “êxodo” no livro de Êxodo e outro de Isaias 43.16 (o retorno do exílio babilônico visto como um novo êxodo).

Neo-ortodoxia, como o retorno do diálogo entre o A.T e o N.T. Busca de unidade de propósito e sentido. Há uma unidade em relação à “libertação” do antigo com o novo.

A ênfase exegética e temática da teologia do A.T tem proporcionado uma nova leitura do A.T. a partir de perspectiva sócio-política (Os Dez mandamentos, por Frank Cruesemann; A Eleição de Israel, por Schalom Ben Chorin).


REVELAÇÃO NO ANTIGO TESTAMENTO


Não existe no hebraico bíblico uma palavra que signifique literalmente “revelação”, mas o verbo (galah), que significa “despir”, “desnudar”, “descobrir”, “desvendar” (também “ir para o cativeiro”), nos indica a ideia de revelação. O termo aparece no texto mais conhecido do A.T. sobre revelação, Dt.29.29. A expressão “coisas reveladas”, segundo Smith (pg. 95), refere-se na verdade a responsabilidade de Israel em ser fiel à aliança conhecida pelo povo através da palavra revelada, através do evento do êxodo no Sinai, conforme analise dos versos Dt. 29.22-28 (comparado a Ex.19.4-6). O termo aparece também em conexão com (Yada), que significa “conhecer”, “descobrir”, mas quase sempre no sentido de ter intimidade e de experimentar, como em I Sm. 3.7 e em Jr. 22.15-16.

De acordo com Georg Fohrer (1982, p.54), “o antigo testamento fala da revelação de Deus na vida e no destino dos povos e dos homens. Não fala do ser e da essência de Deus em si mesmo e em sua plenitude, mas apenas do seu ser e agir em relação ao homem”, conforme citação de Ex. 33.18-23. Nesse texto o ser humano não pode ver Deus como realmente ele é, mas apenas aquilo que lhe diz respeito ou que o Senhor quer revelar: sua bondade, sua graça e sua misericórdia. Em última análise, o texto nos fala das intervenções de Deus a favor do seu povo (ver ainda Dt. 29.29).

Assim, notamos que os textos introdutórios do Antigo Testamento Gênesis capítulos 1 a 3 não tem por objetivo trazer uma declaração cientifica da criação do mundo, mas os relatos nos remetem a Deus como: Criador – Juiz e Redentor.

A mensagem bíblica parte da relação de Deus com o homem e do homem com Deus. Trata-se da revelação de um Deus que vem ao encontro do homem caído.

Notório que, ao transgredir Adão, este busca para si folha de figueiras (Gn. 3.7) para cobrir a vergonha de sua nudez diante do Criador, todavia o texto nos declara que Deus providenciou uma vestimenta mais adequada para o homem (Gn. 3.21).

Deste modo a bíblia nos antecipa a fuga naturalista do homem e a provisão de Deus. Digo (Fuga Naturalista), porquanto, o ser humano sempre manifestou buscar como solução para a sua crise existencial o caminho do naturalismo.

O naturalismo, "em oposição ao sobrenatural ou espiritual, é a ideia ou crença de que apenas as leis e as forças naturais operam no mundo; em extensão, a ideia ou crença de que não existe nada além do mundo natural”. Os adeptos do naturalismo - ou seja, os naturalistas - afirmam que as leis naturais são as regras que regem a estrutura e o comportamento do universo natural; que cada etapa da evolução do universo é um produto dessas leis.

Já no Éden a teologia bíblica confronta esta posição, o que nos remete a lógica e profundidade da bíblia como Palavra de Deus.

Assim, Deus não os abandona no momento mais angustiante de sua vida, antes vem em socorro de ambos e faz a maior e mais sublime das promessas bíblicas: “E porei inimizade entre ti e a mulher, e entre a tua semente e a sua semente; esta te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn. 3.15).


Conceitos de Revelação Através dos Nomes de Deus


ü Eu Sou – Ex. 3.14; Jo 8.58. Esse nome revela autoconsciência.

“Eu sou o que sou” é o pensamento que fica por detrás do nome “Jeová”. Três coisas estão ali envolvidas:

a) A autossuficiência de Deus,

b)  Sua absoluta soberania e

c) Sua imutabilidade.

ü “Jeová Jiréh” (O Senhor proverá) Gn. 22.13-14 Esse nome revela providência pessoal.

ü “Jeová Nissi” (O Senhor é nossa bandeira) Ex. 17.15 – Js. 5.13-14; Sl 20.7.

Esse nome revela liderança pessoal.

ü “Jeová Rafá” (O Senhor que sara) Ex. 15.26.

Esse nome revela preservação.

ü “Jeová Shalom” (O Senhor nossa paz) Jz. 6.24

Esse nome revela que Deus como aquele que concede paz.

ü “Jeová Raá” (O Senhor é meu Pastor) Sl. 23.1; Sl. 95.1.

Esse nome revela orientação, proteção e bondades pessoais.

ü “Jeová Tsidkenu” (O Senhor justiça nossa) Jr. 23.6.

Esse nome revela Deus como justiça pessoal imputada, assim satisfazendo nossas necessidades pessoais para com Ele.

ü “Jeová Sabaot” (O Senhor dos Exércitos) I Sm. 1.3; Sl. 84.12. Esse nome revela liderança e domínio pessoais

ü “Jeová Shamah” (O Senhor está presente) Ez. 48.35. Esse nome revela presença pessoal.

ü “Jeová Elion” (Senhor Altíssimo) Sl. 97.9; Sl. 7.17, 47.2; Is. 6.1. Esse nome revela preeminência pessoal.

ü “Jeová Micadiskin” (O Senhor que vos santifica) Ex. 31.13. Esse nome revela o Deus que separa os seus.

ü “Elohim”: é o Deus criador.  O nome de Deus está no plural, dando a ideia da trindade, na composição do Senhor Deus. Gn. 1.1

ü “El-Olam”: o Eterno Deus (Gn. 21.33) este nome afirma acerca da eternidade de Deus.

ü “Adonai”: “Senhor” ou “Mestre”. Dá a ideia do governo e domínio de Deus. Ex. 23.17; Js. 10.10,33.

 
Na mentalidade Antiga, o nome não era um simples som, mas havia entre ele e seu portador uma íntima relação substancial. A divindade precisa primeiro fazer “uma memória de seu nome” (Ex. 20.24).

O nome de Javé deve ser santificado. Por isso, deve-se empregar este nome em serviços especiais: culto, sacrifício, oração, benção e maldição e na guerra santa, conforme Sl. 20.7-8; Dt. 10.8; o homem deve tomar cuidado para não tomar o nome de Javé em vão, pois alguns juramentos também eram feitos em nome de Javé (Ex. 20.7, Lv. 19.12 paralelo a Mt. 5.33).

Convém lembrar que na teologia deuteronomista não é Javé quem habita no templo, pois ele não cabe no templo e já tem uma habitação (Dt. 26.15). O nome de Javé, este sim, habita no templo (Dt. 12.5,11; Dt. 26.2; I Rs. 8.26-29). Ainda na obra cronista o mesmo conceito (II Cr. 7.14-16)


Reflexões em Teologia do Antigo Testamento


INTRODUÇÃO

Conforme Brueggemann a Teologia do Antigo Testamento no século XX se encontra permanentemente em dívida com as obras de Eichrodt e Von Rad, sendo que, todos os demais empreendimentos exegéticos devem levar em consideração seus empenhos.

Entretanto, estabelece que a coerência exigida na atualidade por uma teologia do A.T. deve concentra-se não em questões temáticas, sim nos processos que foram originados dentro das comunidades a quem o texto se refere, como também, aquilo que pode estar na frente do texto quanto da ocasião de sua recepção pela comunidade ou redator final.

Sua concentração está nas metáforas e nas imagens que se desenvolveram de um juízo ante o tribunal.

A ênfase está em três dimensões:

1. Testemunho – Sugere a existência de um tribunal que contempla os testemunhos,

2. Disputa – juízo nas diversas ofertas de verdades conflitantes,

3. Defesa – uma versão de verdades que se coaduna com a perspectiva e definição do significado de Yahvé e sua centralidade.
 

Em sua interpretação Brueegemann segue os raciocínios lógicos da pós-modernidade que tem como um de seus aspectos o pluralismo. De modo que, submete o ambiente veterotestamentário aos princípios da pluralidade presente na literatura do mundo antigo até sua redação final.

Assim, no prólogo declara a necessidade de revisões continuas para o avanço da sombra.

Seu postulado é de que Eichrodt na década de trinta e Von Rad nos anos cinquenta desenvolveram significativas mudanças na tarefa da interpretação e no contexto do desenvolvimento conduzindo a uma interpretação alternativa nova e audaciosa.

No entanto, Brueegemann fala da instabilidade atual que se deve, em parte, a chamada situação epistemológica pós-moderna, vinculada a oferta de um contexto para a interpretação em nossos dias, o que difere dos dias de Eichrodt e Von Rad ao longo do século XX. Reconhece assim, a incidência de um pluralismo recente e que se manifesta em diversos níveis impondo um novo e aguerrido empenho epistemológico com rigor nas releituras e que avancem no desenvolvimento das Teologias do Antigo testamento, no entanto, buscando uma ênfase histórico-evolutiva como premissa maior e que resignifique a teologia para pós-modernidade. Esta última demarcada pelas incertezas e pela força incomensurável da subjetividade.

O pluralismo para Brueggemann se faz refletir pelo menos sob três noções básicas:

1. Um pluralismo de afirmações da fé e de articulações de Yahvé no texto mesmo – (Von Rad inicia e Rainer Albertz aprofunda).

2. Um pluralismo de métodos que põe fim a antiga hegemonia da abordagem histórico-crítico.

3. Um pluralismo de comunidades interpretativas, cada uma das quais mostram a influência do contexto atual em suas práticas epistemológicas, bem como seus interesses socioeconômicos e políticos.

 
Como implicação segue-se o postulado de que;

1.  Não é possível identificar uma única articulação de fé nos textos do Antigo Testamento,

2. Não é possível um método crítico de consenso hegemônico,

3. Não há uma comunidade interpretativa dominante.

 
I – REFLEXÃO A PARTIR DA ANÁLISE TEOLOGICA DE EICHODT E VON RAD


Portanto, frente a esta nova situação hermenêutica, resulta-se que o tema deve ser elaborado de forma diferente dos modelos dominantes abalizados no legado de Eichrodt e Von Rad. A problematização de Brueggemann sugere que não é possível elaborar uma declaração coerente a respeito do conteúdo teológico dos temas do Antigo Testamento, o que certamente compromete a pesquisa e provoca um reducionismo exegético.

O êxito da tarefa não se encontra na questão substantiva ou temática, mas sim nos processos, nos procedimentos, e no potencial de interação da comunidade(s) presente(s) no texto.

Como hipótese central, e já citada anteriormente de maneira introdutória Brueggemann propõe a análise de três dimensões que norteiam suas perguntas aos textos:


1. O Testemunhoque tem como ênfase o giro em torno do discurso que, de diversas maneiras, se considera válido e persuasivo,

2.  A Disputa – onde se manifesta a imagem de um tribunal no qual a instrução e diversas nuances da verdade se conflitam simultaneamente. O que deveras estabelece um ambiente de juízos e tensões, que exigem muitos testemunhos, os quais são energicamente interrogados.

3. Defesa – ou Apologia dos testemunhos de Yahvé no Antigo Testamento em que se advoga por uma verdade e uma realidade em que Yahvé se apresenta como personagem principal e protagonista. 

Brueggemann acredita que este processo de testemunho-disputa-defesa reflete fielmente o processo do discurso (ou da reflexão) teológica do Antigo Testamento e da como resultado as afirmações da verdade e as configurações da realidade que se oferece no Antigo testamento.


II - A REFORMA PROTESTANTE E SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA O DESENVOLVIMENTO DAS TEOLOGIAS DO ANTIGO TESTAMENTO

 
É preciso levar em conta que a disciplina possui uma larga história na Igreja e no âmbito acadêmico, resguardando um permanente debate entre o passado e a atualidade.

Destaca-se inicialmente o legado transmitido pelo movimento conhecido como Reforma protestante no século XVI. Compreende-se que a Reforma desenvolveu uma resposta a “verdade evangélica da Bíblia” sem condescender definitivamente aos pressupostos dogmáticos e ao controle da interpretação eclesial estabelecida.

Uma das afirmações de Lutero ilustra bem a questão “O conteúdo evangélico da fé bíblica não está, nem pode estar encerrado na leitura usual, habitual e reducionista da teologia eclesiástica que converte Deus simplesmente em parte integrante de um sistema de salvação administrado pela Igreja”.

Este reconhecimento da realidade libertada e libertadora da revelação, em seu caráter estranho e livre, encontra seu paralelo na audácia e no valor de Lutero para identificar essa peculiar afirmação engendrada de fé e na fé por sua vez engendrando. Portanto. Está em questão a força política da Reforma e suas pressuposições para o impulso da exegese bíblica.

Brueggemann enfatiza a leitura sob dois aspectos: Escritura x Tradição como base exegética da Reforma. Reconhece por um lado suas contribuições históricas, porém, denuncia a força dos concílios e as compara com a força por detrás das comunidades veterotestamentarias.

Assim, se produziu uma luta pelo controle da interpretação entre:


1. Os ortodoxos, que se consideravam respaldados pela Bíblia na defesa da doutrina da Reforma:

2. Os Racionalistas - que se apegavam a modelos mais novos de aprendizagem autônoma, os quais conduziram ao Deísmo;

3. Os Pietistas – que se opunham tanto a ortodoxia acintosa como ao racionalismo autônomo;

Em suma se compreende que a ortodoxia, o racionalismo e os pietistas dirigem diferentes perguntas a Bíblia, as quais se derivam de interesses diversos e de realidades sociais muito distintas.


III - A MODERNIDADE - EMANCIPAÇÃO E AUTONOMIA E SUAS CONTRIBUIÇÕES PARA O DESENVOLVIMENTO DAS TEOLOGIAS DO ANTIGO TESTAMENTO
 
É importante não perder de vista o fato de que a obra de Lutero e a agitação da vida religiosa na Europa foram seguidas imediatamente por outro movimento muito diferente, que foi o precursor do iminente iluminismo europeu.

Destacam-se os nomes de René Descartes (1596); John Locke (1632). Relembra o auge da ciência, e os avanços filosóficos por meio do programa racionalista de Descartes culminando com a obra de Immanuel Kant e Georg Wilhelm Friedrich Hegel.

O conceito de emancipação emerge e o pluralismo religioso enfaticamente se estabelece criando métodos epistemológicos desafiadores recusando a dominação da Igreja e da tradição despertando um novo espírito e uma nova consciência.

Portanto, um estudante de Antigo Testamento não apreciará o que se oferece e se exige no desenvolvimento da crítica a menos que a manifestação da critica histórica se veja como parte desta grande mudança de sensibilidade, na qual se separa a autoridade e a tradição confiando em uma investigação objetiva e autônoma.

Resulta, portanto, na tensão entre a autoridade eclesiástica e a autoridade do estudioso científico emancipado. 

IV – O CONCEITO DE “HISTÓRIA” E SUAS IMPLICAÇÕES PARA O DESENVOLVIMENTO DAS TEOLOGIAS DO ANTIGO TESTAMENTO

Resultante das pesquisas até aqui está o reconhecimento do labor fundamental dos exegetas a partir do século XVII que foi tratar de localizar e compreender o empreendimento humano. Assim, se desenvolveu uma tradição de estudos, que contou com um consenso cada vez maior, que resultou na discussão sobre quais os textos eram os mais primitivos, como haviam sido transmitidos e como se haviam alterado durante a transmissão; como também, quais os textos podem ser mais confiáveis, mais corretos e mais elaborados. O que evocou uma crítica histórica em conformidade com o espírito da época, que, leva em conta a distinção dos textos e a classificação de acordo com diversos critérios científicos.

Desta forma a literatura bíblica passou a ser submetida, ao menos metodologicamente, as reivindicações racionalistas da elite interpretativa.

No séc. XIX destaca-se a influência de Hegel, cuja ênfase recai sobre o auge da história, o que até certo modo se encontra em tensão com o racionalismo imperante nos séculos XVIII e XIX, apelando a uma espécie de empirismo em Locke. Evidencia-se assim no século XIX, que a “História” se converte em uma forma de conhecimento dominante, de modo que tudo passa a ser compreendido como participante de uma história, de uma carreira evolutiva.

Brueggemann arrazoa duas questões importantes para quem deseja lograr êxito na produção histórico-teológica do Antigo Testamento:

1. A história havia adquirido um caráter positivista, de modo que os acontecimentos se consideravam como algo totalmente decifrável, excluindo qualquer realidade inescrutável.

2. Em segundo lugar o século XX passou a ser crucial por abalizar a noção de história como evolutiva, de forma que os acontecimentos tendem a ser contemplados como algo ordenado progressivamente em uma sequencia.

Isto ocasionou uma profunda tensão entre o acento evolucionista e os que buscavam na Bíblia afirmações de verdades absolutas. Conclui-se que nos séculos XVII e XVIII as categorias intelectuais em linhas gerais eram situadas na ciência racional, cuja intenção era estabelecer o que era fundamentalmente “certo”; entretanto, no séc. XIX os novos temas fora levantados em termos de desenvolvimento histórico, que abandona uma realidade estabelecida por uma realidade evolutiva.

Emerge-se um processo epistemológico de relevância suprema para o contexto denominado pós-moderno, onde subjazem as premissas filosóficas de Bacon, Descartes, Locke e Hegel entre outros, resultando na reflexão de que todo exegeta deve ser filho de sua época e reconhecer as categorias a sua disposição como cidadãos de um determinado mundo sociocultural.

 A ênfase no processo evolutivo da história recai sobre o olhar crítico de que todas as coisas estão submetidas a desenvolvimentos paulatinos: Exemplos disso é a própria fé, a sexualidade, os matrimônios felizes, as grandes fortunas etc.; Assim, também no estudo da Bíblia temos que levar em conta o conceito de desenvolvimento.

As sínteses de Wellhausen que regeram sua investigação veterotestamentária refletiram o espírito de sua época. Estudiosos em síntese podiam convir sobre documentos primitivos (JE), Intermediários (D) e tardios (P), os quais por sua vez refletiam a religião de Israel: cedo ou primitivo, o monoteísmo ético e o legalismo degenerado. O desenvolvimento refletia a história dos documentos, a história de Israel, a história da religião de Israel e a história do Deus de Israel (entendida como a história da compreensão de Deus por parte de Israel). No entanto, atualmente existem críticas em relação a teoria das fontes e os juízos de valor a ela delimitados, porquanto, (JE?) podem não refletir em sua totalidade as fontes mais primitivas de Israel, assim como, as demais hipóteses. Um exemplo disso se encontra no Evangelho de Mateus representando uma das leituras do judaísmo, mas que não reflete essencialmente o judaísmo em si.

Enquanto no século XIX o evolucionismo é muito diferente do racionalismo e empirismo do século XVIII, está em continuidade com eles para exercer uma epistemologia do conhecimento humano como intérprete objetivo desobstruído, portanto, o que era compreendido como leitor de dados tomou partido e foi envolvido.

V – POR UMA RECUPERAÇÃO DA INTERPRETAÇÃO TEOLÓGICA
 
Brueggemann, no entanto, não deixa escapar a necessidade de uma interpretação teológica. O que o faz sopesar alguns critérios metodológicos, bem como assinalar aos perigos decorrentes de métodos reducionistas.

Assim, correlata à teologia de Karl Barth como uma das importantes e entusiásticas pesquisas de nossos dias.

Admoesta, no entanto, que o erro de Barth foi assumir um ponto de partido para sua afirmação cristológica, o que relembra Eichrodt com a teologia da Aliança.  O que resultou com frequência na acusação de que Barth é um fideísta norteado por um positivismo teológico. Seu postulado é radical, pois que, delimita a reflexão teológica como tendo somente um ponto legítimo de partida.

O que sopesa para Brueggemann é a questão de que não exista uma análise exegética que seja absolutamente neutra, mas sim, que todo estudioso e interprete teológico é alvitrado por algum sentido. A isto se deve prestar o máximo de atenção, pois, a pesquisa tornar-se-á relevante à medida que este fator for sendo superado metodologicamente. De fato, emerge aqui o diálogo com a denominada transdisciplinaridade.

Como continuação dos enunciados de Barth estão Albrecht Alt e Martin Noth, os quais, inverteram os pressupostos que normalmente dominavam os estudos do Antigo Testamento. Durante um grande período dominado pela critica histórica e seu evolucionismo, se assumia que as grandes categorias teológicas de Israel haviam aparecido tardiamente no desenvolvimento histórico de Israel – no esquema de Wellhausen só com Deuteronômio e os Profetas, posteriormente nos materiais (JE). Porém, uma das consequências da obra de Alt foi à afirmação de que muito cedo, quase desde o principio, o mosaico Israel possuía pressupostos teológicos peculiares.

Na obra de Alt podem-se identificar algumas hipóteses que foram cruciais para a exegese do período seguinte. Inicialmente Albrecht Alt distinguiu de acordo com os critérios metodológicos da crítica das formas os conceitos de (Lei casuística) e (Lei Apodíctica):


1.      Por (Lei casuística) – surgiu a partir de determinados vereditos dos tribunais, é característica de coleções legais anteriores a Israel e conhecidas em outras culturas. Esta formulação legal está amplamente difundida no entorno cultural de Israel.

2.      Entretanto a (Lei Apodíctica) – expressa mandamentos e proibições absolutas (por exemplo: “não...........”)  que são próprias de Israel e não si encontram em nenhuma outra parte nas coleções legais do Oriente próximo.

 

Em segundo lugar, Alt prestou cuidadosa atenção à “Religião dos Ancestrais” em Gn. 12 – 36. Articulou um agudo contraste entre o “Deus dos Pais” e outros deuses pré-israelitas que se encontram nos relatos do Gênesis. Outros deuses como El-Roí (Gn. 13-16) e El-Elyon (Gn. 14-18) estão tipicamente vinculados a lugares e a fenômenos naturais; a saber, são estáticos e fixos. Pelo contrário, o “Deus dos Pais” não está fixado a nenhum lugar, sim a pessoas. Assim, este Deus do livro de Gênesis, é diferente dos demais deuses. Ele vai com os ancestrais de Israel em suas viagens a terra prometida.

Há algo paradoxal nos resultados dos estudos de Alt. Como historiador meticuloso, Alt levou a cabo sua tarefa considerando cuidadosamente os paralelos históricos e as analogias em outras propostas religiosas. Contudo, a realização mais útil de Alt foi sublinhar a peculiaridade do “Deus das promessas”. A interpretação teológica que subjaz na afirmação histórica de Alt não é que o “Deus dos Pais” se distinguia dos demais deuses, sim que é distinto de outros deuses presentes nos relatos ancestrais. Desse modo, o “Deus dos Pais” é um agente dinâmico móvel que tem uma intenção determinada. Ademais, é a mensagem das promessas e a atividade deste Deus peculiar o que inicia o processo histórico de Israel.

Alt recebeu um embasamento institucional de relevante credibilidade devido a continuidade impetrada por seu aluno Martin Noth.

Noth ficou conhecido por sua interpretação sobre o “Sistema das Doze Tribos”. Baseado em paralelos subsequentes e antibíblicos, Noth propôs que o Israel primitivo consistia em um sistema de doze tribos (não sempre as mesmas doze), relacionadas com um calendário de doze meses, e organizadas em tono de um templo o santuário central. A notável e definida vida do sistema se centralizava nas atividades do santuário, apresentado de diversas maneiras nas hipóteses de Betel, Gilgal, Siquém e Siló. Segundo esta hipótese, as tribos se reuniam regularmente no santuário para escutar a Torá (Dt. 31. 10-13) e para jurar aliança que as uniam entre si em comum lealdade a Yahvé, o Deus da Federação. Assim, participavam habitualmente das cerimônias, que regulavam todos os aspectos da vida.

Uma terceira característica desta confederação tribal, pelo que parece era a guerra santa. Os exegetas posteriores a Noth, especialmente Von Rad, levantaram a hipótese de uma dimensão da confederação eram as possibilidades militares legitimadas e ordenadas pela atividade cultual. Os aspectos militares da comunidade teriam como objetivo um pacto defensivo, em virtude da qual as tribos membros prometiam apoiar-se umas as outras em tempos de perigo bélico (cf. Josué 5.13-18). Essa ideologia da guerra , no entanto, não foi simplesmente um acordo político se apoio mútuo. Se tratava também de uma afirmação de que Yahvé, o soberano da federação, era um Deus guerreiro que, como agente militar, atuava diligentemente para o bem das tribos membros.

Baseando-se nestes Três aspectos - Lei Apodíctica, Proclamação da Lei e Guerra Santa estes historiadores defenderam a peculiaridade de Israel, a qual cuidava, de fato, uma peculiaridade teológica, enraizada no caráter particular de Yahvé, o suposto Deus da confederação. Esta raiz central da peculiaridade de Yahvé que dava impulso a particularidade histórica de Israel como um povo peculiar entre as outras tribos e nações (cf. 2 Sm. 7.22-23).

Enquanto que esta extraordinária exegese alemã proporcionava as categorias fundamentais para teologia do Antigo Testamento, nos Estados Unidos se produziu uma evolução comparável que foi a seu modo, igualmente notável, criativa e influente. Sendo que, uma das figuras mais respeitável na exegese estadunidense foi William Foxwell Albright, um erudito que deu impulso a arqueologia bíblica.

Em suas hipóteses denunciou diretamente que o evolucionismo da grande compreensão teológica de Israel era tardio. Assim, para Albright não existe uma “história” neutra; toda história implica certa intencionalidade teológica.

Albright é seguido por George Mendenhall (1954). Este propunha que a aliança mosaica estava modelada sobre a base de tratados políticos internacionais do século XIV a.C., de maneira que a linguagem e a intenção da aliança de Moisés no Sinai não teriam nada em comum com a religião Cananéia. Desde seus inícios, a aliança de Israel era uma teoria política sobre a justiça. Assim, Mendenhall sugeriu que o decálogo constituía uma afirmação de caráter político que diz com respeito ao ordenamento da curiosa noção Israelita de poder público. Desse modo, o poder absoluto de Yahvé eliminava o caráter absoluto de qualquer outra reivindicação e pretensão de poder, convertendo assim Israel em um fenômeno político sumamente peculiar em o mundo da religião Cananéia.

Conclui-se, todavia que estes historiadores e teólogos de alguma maneira seguiram o modelo de Barth, no qual estavam em conflito com a tradição e a Igreja, porém, desenvolveram suas teologias, sob a compreensão de que estavam vinculados ao serviço eclesiástico. O que de certa maneira criava um reducionismo fideísta no entorno de conceitos de revelação e canonicidade.

 

VI – CONSIDERAÇÕES SOBRE OS MODELOS TEOLÓGICOS DE WALTER EICHRODT E VON RAD

 

O programa de Eichrodt é explorar e todas as variações e evoluções da religião de Israel. Pode ser considerado o serviço de uma única noção conceitual, a aliança. Para Brueggemann em seus três volumes, Eichrodt estuda o Deus da aliança, os instrumentos da aliança e a aliança na vida dos indivíduos.

Conforme Brueggemann há sérios problemas nos pressupostos exegéticos e teológicos de Eichrodt. Porquanto, a temática de Eichrodt mostra que todos os intentos convencionais que realizemos para conter o Antigo Testamento, tanto em categorias científicas modernas, ou em categorias teológicas escolásticas são em vão.

Assim, encontra-se em Eichrodt um reducionismo e enrijecimento metodológico.

Entretanto, um segundo grande momento da teologia do Antigo Testamento e que exerceu uma grande influencia nos Estados Unidos, é a obra de Gerhard Von Rad.

Seu ponto de partida baseia-se em uma análise da critica das formas, consiste em propor que os relatos de (Dt. 26. 5-9; 6, 20-24 e Js. 24. 1-13 constituem a articulação teológica mais primitiva e mais característica de Israel.

Von Rad entende a teologia de Israel como uma interpretação narrativa do que o ocorrido no passado de Israel, uma narração que, todavia possui força decisiva para as gerações futuras.

Sua hipótese consiste em três formulações fundamenteis:

1.      Primeiro sugere uma breve alusão aos ancestrais que aparecem em (Gn. 12-36), mas os fatos decisivos são a libertação da escravidão no Egito e a entrada na terra prometida (o que propõe um Interlúdio denominado de Vida confessional).

2.      A partir de este relato nuclear assinala os inícios da fé de Israel. Esboça o desenvolvimento da fé de Israel e sua plena expressão sob o esquema dos materiais da criação de (Gn. 1-11) em suas partes mais primitivas; posteriormente nos materiais dos ancestrais em (Gn. 12-50), em que o credo inicial não havia sido uma referência do passado.

3.      E a tardia “inclusão” do material do Sinai, que havia experimentado uma evolução independente.

 Este empreendimento exegético levou Von Rad à pressuposição do Hexateuco (Gênesis a Josué). Von Rad compreendia a Teologia do Antigo Testamento como um processo contínuo de “tradição”, em que cada sucessiva geração israelita recita o relato, mas o faz incorporando novos materiais e reformulando, de maneira que o antigo relato pode seguir sendo pertinente para as novas circunstâncias e as novas crises.

Assim, o Antigo Testamento é, em primeira instância, a constante repetição da narração canônica da vida de Israel com Yahvé. Von Rad concebe este processo como a atividade teológica fundamental em Israel.

Cada nova geração há de fazer um esforço contínuo para voltar de forma atual em cada período de sua existência as intervenções salvíficas de Yahvé na história, essa persistente e renovada compreensão e proclamação das ações divinas, que em último termo converteu as antigas profissões de fé em um enorme e complexo conglomerado de tradições. Assim, Von Rad percebe e chama a atenção sobre a questão do dinamismo histórica da fé de Israel.

Von Rad intensificou suas pesquisas desenvolvendo um volume em que trata das tradições proféticas de Israel e sua dependência do material do Hexateuco.

Mesmo diante da riqueza exegética propiciada pelas teologias até aqui mencionadas, Brueggemann sugere que a exegese postulada tem estado preocupada demasiadamente com a aparente incapacidade de saltar a “brecha” de Gutthold Lessing que separa o histórico do Teológico.


VII – METODOLOGIA DE BRUEGGEMANN
Brueggemann propõe como sequência o reconhecimento da contribuição de Eichrodt e Von Rad, porém, contudo menciona não os manter como modelo para seu próprio trabalho.

Sugere que é mais importante perceber a maneira em que essas obras ressoaram a seu tempo e em seu ambiente particular, reconhecer o brilho dessas obras e descobrir que uma dimensão da sua grandeza é o fato de ser específica para seu tempo.


a)  Eichrodt respondeu ao desafio imposto por Barth: Articular o que é normativo, característico e peculiar da fé de Israel, frente a um evolucionismo que relativizava toda afirmação teológica.

b) Von Rad, mais especificamente implementou um olhar para o conteúdo da hipótese crença e método, a fim de encontrar um apoio para a fé em um contexto social que se opunha fundamentalmente a sua confissão.
Portanto, conclui-se que para Eichrodt o mais importante é o Deus que estabelece uma aliança; para Von rad, é o Deus que atua.

Brueggemann levanta como questão básica para as pesquisas em Teologias do Antigo Testamento: é que nem Von Rad, nem outra pessoa tem encontrado uma maneira de relacionar a história da salvação (a conta de dados teológicos ou credo) com a história secular, tal como esta podia recuperar-se por meio da investigação histórica. Von Rad havia intentado fazê-lo ao afirmar a tensão entre “mínimos históricos” e “máximos-teológicos”, mas tal formulação somente reconhecia o problema e a tensão, não o solucionava.

Para uma fissura e ruptura maior intensificando os estudos no Antigo Testamento Brueggemann analisa o problema epistemológico e linguístico, presentes nas obras de Eichrodt e Von Rad, junto às objeções histórico-críticas dos credos de Von Rad, e as hipotéticas construções de apoio de Alt e Noth, Albright e Wright.

Para nossos propósitos, é suficiente mencionar a crítica fundamental feita contra movimento da teologia bíblica de Bervard Childs e Barr James, que, embora unidos na crítica que se revelou decisiva, o fez de maneiras diferentes e por razões diferentes.

Brueggemann faz um comentário da propsta de Childs como um retorno ao método canônico, sendo este um oponente do método histórico-crítico. Para Childs os pontos de referência necessários são os indícios dados no texto mesmo e na orientação dada na comunidade de fé a respeito de uma leitura teológica responsável (por exemplo, os credos e as afirmações da Igreja).

Barr, em parte estava de acordo com Childs, entretanto, rechaçava vigorosamente a proposta de uma alternativa canônica. Porém, a investigação de Barr começava com um estudo magistral e pioneiro sobre a semântica e o papel que a teoria semântica pode julgar na interpretação da Escritura. Para Barr Deus não somente atua - como fala, de modo que, a interpretação teológica deve concentrar-se no discurso de Deus.

VIII - CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por último, a fim de compreender o ponto de ruptura da Teologia do Antigo Testamento no final do século XX, os estudantes tiraram proveito e pretaram cuidadosa atenção ao livro (The Collapse da History, Leo Perdue).

Em suma temos: A manifestação da história como principal co-disciplina da exegese bíblica no fim do século XVIII marcou a determinação dos exegetas de livrar-se da interpretação eclesiástica, que desde a muito havia considerado a filosofia como co-disciplina própria. A aceitação da história como perspectiva adequada para entender os textos bíblicos refletia o espírito do século XIX e era, sem dúvida, um intento de ser científico mais que confessional. Para tanto, o grande empreendimento histórico-crítico do século XIX se estabeleceu fundamentalmente nas questões históricas.

O “Colapso” não significa somente o reconhecimento de que algo como a história da salvação é demasiado inocente, sim que os pressupostos epistemológicos da modernidade europeia, com seus privilégios hegemônicos, resultam insuficientes.

A isto Brueggemann acrescenta as abordagens sociológicas e julga necessário um espírito sempre inovador para discussão e implementação de novas metodologias, uma vez que os métodos se tornam insuficientes e si fazem renovar evolutivamente.

Enfatiza-se que a sociologia como disciplina tem apenas duzentos anos, pretende descobrir as forças mediante quais comunidades e sociedades verteram sua vida por meio da organização do poder e dos símbolos.

Destaca-se a produção da literatura sociológica nos estudos do Antigo Testamento que tem sido de grandes proporções, prestando atenção a cada fase e aspectos da vida pública de Israel. Inclui a obra de Robert Wilson sobre os profetas, as investigações antropológicas de Thomas Overholt e Paul Hanson sobre o período pós-exílico e as de George Mendenhall sobre a Monarquia. Porém, de caráter proeminente é a obra de Norman Gottawald associada aos trabalhos de Frank Frick e Marvin Chaney.

Salienta-se o risco de aplicar uma sociologia marxista aos textos, bem como, outros comportamentos que podem comprometer a exegese. Toda atenção é pouca no labor teológico do Antigo Testamento, entretanto, é conveniente administrar sob sensibilidade singular os métodos para desenvolvimento da Teologia do Antigo Testamento.  

De sorte que a critica retórica passa a ser também uma questão intrínseca para metodologia exegética.

A crítica das formas preparou o caminho para a crítica retórica como uma força principal nos estudos do Antigo Testamento, convertida já em indispensável no labor da teologia do A.T.

A crítica retórica é um método que insiste no que, e como se disse resultando crucial e definitiva para o que se disse, de maneira que a Teologia do A.T não trata com um conjunto de ideias normativas que podem expressar-se de muitos modos, sim com uma expressão particular que é pronunciada e ou escrita de um modo determinado. Prestar atenção aos detalhes do texto, como por exemplo, os padrões e a disposição das palavras, a repetição de termos chave, a cuidadosa localização de preposições e conjunções, e a aliteração.

Portanto, descortina-se a nós outros o desafiador empenho das leituras e releituras, dos olhares e entre olhares das Teologias do Antigo Testamento descortinar o cenário histórico onde se disse ter ouvido a Voz de Deus.


 

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